A Pedra que Ninguém Vê o
Peso
A Obra Invisível do
Intendente dos Edifícios
Por Hiran
de Melo
Existe uma pedra que
ninguém vê.
Ela está lá, mas não
aparece.
Foi colocada em algum
lugar profundo da construção, entre tantas outras pedras, e permanecerá
escondida quando o templo estiver concluído.
Ninguém conhecerá sua
forma.
Ninguém admirará sua
beleza.
Ninguém perguntará quem a
colocou ali.
Ela não estará na
fachada.
Não sustentará uma
inscrição.
Não será iluminada.
Talvez ninguém sequer
saiba que ela existe.
E, no entanto, se ela
faltar, alguma coisa poderá ceder.
Porque há pedras cuja
importância não está naquilo que mostram, mas naquilo que sustentam.
Talvez seja essa uma das
imagens mais profundas para compreender o verdadeiro sentido da liderança.
E talvez seja também uma
das primeiras lições que o símbolo do Intendente dos Edifícios oferece
àquele que deseja compreender a Maçonaria não apenas com os olhos, mas com a
consciência.
O templo
que os olhos veem
Quando contemplamos um
templo, nossos olhos procuram aquilo que está diante deles.
As colunas.
As proporções.
As linhas.
A beleza da arquitetura.
A harmonia das formas.
Mas nenhum edifício
existe apenas por aquilo que aparece.
Existe uma parte que se
mostra.
E existe outra que
permanece escondida.
A primeira é contemplada.
A segunda é confiada.
A primeira recebe
admiração.
A segunda recebe o peso.
Talvez também sejamos
assim.
Passamos grande parte da
vida cuidando daquilo que os outros podem ver.
A palavra que
pronunciamos.
A imagem que construímos.
O reconhecimento que
recebemos.
O lugar que ocupamos.
A posição que
conquistamos.
Mas existe uma parte de
nós que ninguém vê.
É nela que estão nossas
renúncias.
Nossos medos.
Nossas lutas silenciosas.
As escolhas que fizemos
sem testemunhas.
As vezes em que
permanecemos firmes quando seria mais fácil desistir.
É nessa parte escondida
que se encontra o verdadeiro fundamento do homem.
O que aparece pode
impressionar.
Mas é o que não aparece
que sustenta.
Por isso, talvez o
primeiro ensinamento do Intendente dos Edifícios não esteja na construção do
templo exterior.
Está na compreensão de
que nenhuma construção permanece de pé se não houver uma estrutura invisível
capaz de suportar aquilo que os olhos contemplam.
O
Intendente e a responsabilidade pela Obra
O Intendente dos
Edifícios não é apenas aquele que observa a construção.
É aquele que assume
responsabilidade por ela.
Há uma diferença profunda
entre olhar uma obra e responder por ela.
Quem apenas olha pode
apontar defeitos.
Quem responde por ela
precisa encontrar soluções.
Quem apenas contempla
pode escolher o que lhe agrada.
Quem constrói precisa
lidar com aquilo que é possível.
Quem está de fora pode
julgar.
Quem está dentro precisa
sustentar.
É por isso que toda
verdadeira liderança possui uma dimensão de responsabilidade que não pode ser
confundida com autoridade.
A autoridade pode ser
recebida.
A responsabilidade
precisa ser assumida.
A autoridade pode ser
exibida.
A responsabilidade,
muitas vezes, precisa ser carregada em silêncio.
O Intendente compreende
que a Obra não lhe pertence.
Ele apenas recebeu, por
determinado tempo, a missão de cuidar dela.
E talvez aqui esteja uma
das grandes ilusões de quem ocupa qualquer posição de liderança:
imaginar que o cargo
transforma a pessoa em proprietária daquilo que, na verdade, ela apenas
administra.
Nenhum homem é dono da
Obra.
Somos, no máximo, seus
trabalhadores temporários.
Outros vieram antes de
nós.
Outros virão depois.
O que recebemos não é uma
propriedade.
É uma responsabilidade.
E toda responsabilidade
verdadeira exige uma pergunta:
o que deixaremos quando
partirmos?
A pedra
oculta
Existe uma tentação muito
humana em toda construção.
A tentação de querer ser
a pedra mais bonita.
A pedra mais alta.
A pedra mais admirada.
A pedra que todos
reconhecem.
Mas um templo não pode
ser construído apenas com pedras que desejam aparecer.
Algumas precisam aceitar
o silêncio.
Precisam ocupar lugares
onde ninguém as verá.
Precisam suportar pesos
que jamais serão reconhecidos.
Essa talvez seja a grande
diferença entre a vaidade e o serviço.
A vaidade pergunta:
— Quem verá o que fiz?
O serviço pergunta:
— O que precisa ser
feito?
A primeira procura
testemunhas.
O segundo procura
necessidade.
A primeira deseja
reconhecimento.
O segundo aceita
responsabilidade.
Talvez seja por isso que
as maiores obras humanas sejam, muitas vezes, sustentadas por pessoas que quase
ninguém conhece.
Há homens que ocupam os
lugares mais visíveis.
E há outros que tornam
possível que esses lugares existam.
Os primeiros recebem os
aplausos.
Os segundos sustentam a
construção.
Mas o tempo, que possui
uma estranha capacidade de separar aparência de verdade, costuma revelar aquilo
que o presente não consegue perceber.
Porque uma obra não é
medida apenas por sua fachada.
É medida por sua
capacidade de permanecer.
A Pedra
Bruta que ainda somos
Há também uma outra pedra
que o Intendente precisa aprender a reconhecer.
A pedra que somos nós
mesmos.
Quando chegamos à
Oficina, trazemos conosco nossa própria matéria bruta.
Nossas certezas.
Nossas inseguranças.
Nossas paixões.
Nossos preconceitos.
Nossas vaidades.
Nossos medos.
E talvez uma das maiores
dificuldades da jornada maçônica seja perceber que é muito mais fácil querer
transformar o mundo do que aceitar o trabalho de transformar a si mesmo.
Queremos corrigir a pedra
do outro.
Esquecemos a nossa.
Queremos ajustar a coluna
alheia.
Ignoramos as fissuras que
existem em nós.
Queremos ensinar
silêncio.
Mas continuamos falando
demais.
Queremos ensinar
humildade.
Mas nos ressentimos
quando não somos reconhecidos.
Queremos ensinar justiça.
Mas somos indulgentes com
nossos próprios erros.
O verdadeiro Intendente
sabe que toda grande construção começa pelo reconhecimento das próprias
imperfeições.
Não se trata de buscar
uma perfeição impossível.
Trata-se de não abandonar
o trabalho.
A pedra não se torna útil
porque deixou de ser pedra.
Ela se torna útil porque
encontrou seu lugar na Obra.
Talvez também seja assim
conosco.
Não precisamos ser
perfeitos para servir.
Precisamos apenas
compreender onde nossa imperfeição pode ser trabalhada e onde nossas
capacidades podem contribuir.
Governar-se
antes de governar
Há uma forma de poder que
não aparece nos títulos.
É o poder que exercemos
sobre nós mesmos.
Quem não consegue
governar a própria língua terá dificuldade em governar uma assembleia.
Quem não consegue dominar
a própria ira poderá transformar autoridade em violência.
Quem é escravo da própria
vaidade fará do cargo um espelho.
Quem precisa ser
constantemente reconhecido acabará confundindo serviço com autopromoção.
Por isso, talvez a
primeira obra de qualquer dirigente seja interior.
Antes de dirigir homens,
é necessário aprender a dirigir a si mesmo.
Antes de organizar a
Loja, é preciso organizar o próprio espírito.
Antes de corrigir o erro
de um irmão, é necessário ter coragem para reconhecer os próprios.
Essa é uma tarefa que não
termina.
Porque a construção
interior não possui uma cerimônia de encerramento.
A cada pedra assentada,
outra precisa ser trabalhada.
A cada conquista, uma
nova imperfeição se revela.
A cada degrau alcançado,
percebemos que ainda existe um caminho pela frente.
E talvez seja justamente
essa consciência que nos protege da arrogância.
O homem que acredita ter
terminado sua construção provavelmente deixou de construir.
A régua, o
esquadro e a consciência
Toda construção exige
medida.
Sem medida, não existe
proporção.
Sem proporção, não existe
equilíbrio.
E sem equilíbrio, até
mesmo uma grande obra pode ruir.
Na vida, também
precisamos de instrumentos para medir nossas ações.
O esquadro nos lembra a
retidão.
A régua nos lembra que
existe uma distância entre aquilo que somos e aquilo que pretendemos ser.
A arquitetura nos ensina
que nenhuma pedra pode ocupar qualquer lugar.
Cada uma possui uma
função.
Cada uma recebe um peso.
Cada uma participa de uma
harmonia maior.
Talvez esse seja um
ensinamento que a liderança frequentemente esquece.
O líder não precisa fazer
tudo.
Precisa compreender o
lugar de cada pessoa na construção.
Não deve transformar
irmãos em instrumentos de sua vontade.
Não deve usar talentos
alheios para construir sua própria imagem.
Não deve retirar do outro
a dignidade de participar da Obra como sujeito.
Um bom Intendente não é
aquele que concentra todas as ferramentas em suas mãos.
É aquele que sabe
distribuí-las.
Ele não diminui o outro
para parecer maior.
Ao contrário.
Ele entende que uma
construção grandiosa não depende da grandeza isolada de uma pedra, mas da
harmonia entre todas elas.
A pedra que
sustenta não aparece
Talvez seja por isso que
a verdadeira liderança seja tão silenciosa.
Quem lidera
verdadeiramente precisa aprender a suportar um paradoxo:
quanto melhor realiza seu
trabalho, menos necessidade deveria ter de aparecer.
Se a equipe cresce, o
líder pode desaparecer um pouco.
Se os irmãos amadurecem,
o dirigente pode falar menos.
Se a Obra funciona,
talvez ninguém pergunte quem fez funcionar.
E isso não é fracasso.
É sucesso.
O líder que precisa estar
sempre no centro ainda não compreendeu a natureza do centro.
Porque o centro
verdadeiro não é o lugar onde todos olham.
É o lugar a partir do
qual tudo se organiza.
Talvez a liderança mais
elevada seja aquela que, ao final, consegue sair de cena sem destruir aquilo
que construiu.
Porque se tudo depende de
uma única pessoa, então não existe uma obra.
Existe dependência.
A verdadeira construção é
aquela que continua quando o construtor se afasta.
O verdadeiro mestre é
aquele que ensina de tal maneira que, um dia, o discípulo poderá caminhar sem
precisar de sua mão.
O verdadeiro dirigente é
aquele que prepara a Obra para existir além de sua própria presença.
O peso da
pedra
Há pedras que não são
pesadas pelo tamanho.
São pesadas pela
responsabilidade que carregam.
Uma pequena pedra pode
sustentar uma grande parede.
Um pequeno gesto pode
mudar uma vida.
Uma palavra pode
reconciliar.
Um silêncio pode evitar
uma ferida.
Uma decisão tomada em
segredo pode proteger uma instituição inteira.
Por isso, não devemos
confundir visibilidade com importância.
Nem tudo que aparece é
essencial.
Nem tudo que permanece
oculto é pequeno.
Talvez a pedra mais
importante do templo seja justamente aquela que ninguém vê.
Ela não está preocupada
com sua aparência.
Não exige reconhecimento.
Não pede aplausos.
Ela simplesmente cumpre
sua função.
Sustenta.
Permanece.
Resiste.
E, enquanto todos
contemplam as pedras iluminadas pelo sol, ela permanece no escuro, carregando o
peso da construção.
Talvez seja essa a
verdadeira imagem daquele que compreendeu o sentido do serviço.
Não o homem que deseja
estar acima de todos.
Mas aquele que aceita,
quando necessário, estar abaixo, sustentando.
Não aquele que pergunta:
— Quem reconhecerá o que
fiz?
Mas aquele que pergunta:
— O que acontecerá com a
Obra se eu não fizer?
A última
pedra
Um dia, todo Intendente
deixará o seu lugar.
Outro ocupará seu posto.
Outra mão segurará a
ferramenta.
Outra voz dará as
orientações.
E talvez aquele que um
dia foi responsável pela construção já nem esteja presente quando alguém
contemplar o templo concluído.
É assim que o tempo
trabalha.
Ele substitui os homens.
Mas preserva as obras.
Por isso, talvez a maior
honra de quem constrói não seja ter o próprio nome lembrado.
Seja saber que alguma
coisa permaneceu porque um dia esteve ali.
Que uma pedra foi
colocada no lugar certo.
Que uma parede não caiu.
Que um irmão encontrou
força.
Que uma instituição
continuou.
Que uma Obra atravessou o
tempo.
No final, talvez sejamos
todos apenas pedras em uma construção muito maior do que nós.
Algumas ficarão visíveis.
Outras permanecerão
ocultas.
Algumas receberão o sol.
Outras carregarão a
sombra.
Algumas serão admiradas.
Outras serão esquecidas.
Mas todas terão uma
função.
E talvez a grande
sabedoria esteja em compreender que não precisamos ser a pedra mais admirada.
Precisamos ser a pedra
que cumpre seu papel.
A pedra que sustenta.
A pedra que permanece.
A pedra que aceita o peso
sem exigir reconhecimento.
Porque o verdadeiro
Intendente dos Edifícios não constrói para que seu nome permaneça.
Constrói para que a Obra
permaneça.
E talvez essa seja a mais
difícil das lições:
o homem que
constrói para si precisa ser visto; aquele que constrói para a Obra aceita ser
esquecido.
No fim, quando todos os
nomes forem apagados pelo tempo, quando as mãos que assentaram as pedras já não
puderem ser identificadas, quando ninguém mais souber quem colocou cada uma
delas no lugar onde permanecem, o templo continuará ali.
E será então que
compreenderemos.
A pedra que ninguém vê
talvez seja justamente aquela que melhor compreendeu o significado de servir.
Porque ela nunca precisou
ser admirada.
Precisou apenas
sustentar.
E, silenciosamente,
sustentou.
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