Antes que o Sol se Ponha
Sobre o preço do trabalho, o direito à pedra que se lavrou e o
edifício que ninguém vê terminar
Por Hiran de Melo
Existe uma dívida que a
noite não perdoa.
Não
é dívida de ouro, nem de terra, nem de nome. É a dívida do dia — o salário do
que foi feito com as próprias mãos, sob o mesmo sol que se põe tanto sobre quem
paga quanto sobre quem recebe. "Pagar-lhe-ás no mesmo dia o preço do seu
trabalho antes do sol posto." Assim manda a Lei antiga a quem constrói. E
talvez seja esta, mais do que qualquer coluna, mais do que qualquer esquadro, a
primeira pedra do Grau 8.
Porque
antes de ensinar sobre autoridade, sobre hierarquia, sobre quem governa a Obra,
o Intendente dos Edifícios é chamado a olhar para baixo — para o pobre que
ergueu o muro e ainda não recebeu, para o estrangeiro que mora dentro de tuas
portas e não tem a quem recorrer senão a ti. Um grau que começa falando de reis
e conselheiros de Salomão, e termina falando do jornaleiro que precisa comer
antes de dormir. Talvez seja exatamente essa distância — do trono ao salário —
a medida verdadeira deste grau.
O
Preço do Dia
A
Lei não pede caridade. Pede justiça no relógio certo.
Não
retenhas a paga do pobre, quer seja teu irmão, quer seja estrangeiro. Não
imponhas trabalho de escravo a quem, por necessidade, se vendeu a ti — trata-o
como hóspede, não como posse. Não colhas até o fim do campo: deixa espigas para
quem não tem campo algum. Não empresta com juros a quem já não tem forças nas
mãos.
Quatro
mandamentos, uma só direção: o tempo do pobre não pode ser o tempo de espera do
rico. O que se deve, deve-se hoje. Antes que o sol se ponha.
E
há algo de profundamente incômodo nisso, para quem gosta de pensar a Maçonaria
só em símbolos elevados, em colunas e candelabros. Porque aqui, no Grau 8, o
símbolo desce à economia doméstica, ao salário atrasado, à colheita que devia
sobrar um pouco para quem não plantou. O Templo que se ergue não é feito só de
pedra lavrada — é feito também de contas pagas em dia.
Propriedade
Não É Posse
Dizem
os antigos: suum cuique tribuere — dar a cada um o que é seu de direito.
Mas
o que é, afinal, "o que é seu"? Não é o que se acumula. É o que se
produziu com o próprio corpo, o próprio tempo, a própria vida gasta em
trabalho. A propriedade, entendida assim, não é o oposto da fraternidade — é
sua primeira condição. Porque só reconhece o direito do outro quem primeiro
reconheceu o próprio: ninguém protege verdadeiramente aquilo que jamais
aprendeu a nomear como seu.
Há
dois modos de possuir. Um acumula e teme perder — vive fechado, de mãos
cerradas, contando o que tem. Outro produziu e por isso sabe o valor do que tem
nas mãos — porque ali, naquele objeto, naquela colheita, naquele salário, está
depositado um pedaço do próprio tempo de vida, que não volta.
O
Grau 8 não ensina a desprezar a propriedade. Ensina a lembrar de onde ela vem:
do trabalho, que só existe pela liberdade, que por sua vez não existe sem
justiça. Uma corrente. Se um elo falha, os outros caem junto.
O
Templo que Ninguém Verá Terminar
Salomão
perdeu o seu Mestre construtor no momento exato em que a Obra mais precisava
dele. E o que fez? Não substituiu Hiram por um só homem. Elevou cinco — os
chefes de cada Ordem de Arquitetura — e lhes disse, em essência: nenhum de vós,
sozinho, é Hiram. Mas juntos, "um por todos e todos por um", podeis
levar a Obra a bom termo.
Há
uma lição escondida aí, fácil de passar despercebida: ninguém entra numa obra
já pronta, e ninguém a deixa concluída. O Intendente não começa do zero. Chega
com pedras já cortadas, estruturas já erguidas, decisões já tomadas por outros,
antes dele. E partirá também sem ver o telhado posto.
Talvez
seja este o ofício mais difícil que a Maçonaria ensina: liderar uma obra que
não é sua desde o início e que não será sua até o fim. Cuidar do que se herdou
sem tê-lo escolhido. Entregar ao próximo o que também não se vai ver terminado.
Não
é fraqueza. É a única forma honesta de construir algo maior do que uma vida.
Medir
a Si Mesmo Antes de Medir os Outros
Entre
os símbolos deste grau estão os instrumentos de medição — esquadro, régua,
prumo. Instrumentos que servem para julgar a retidão da pedra.
Mas
há uma armadilha nisso que todo Intendente encontra cedo ou tarde: é fácil
pegar o esquadro e apontá-lo para o trabalho do irmão. É bem mais raro voltá-lo
para o próprio peito primeiro.
A
autoridade que se impõe dura o tempo do medo que inspira. A autoridade que se
conquista — pelo serviço, pela retidão, por medir-se antes de medir — essa
permanece mesmo quando ninguém mais está olhando. Não manda quem quer. Governa
quem serviu o bastante para merecer ser ouvido.
Cada
Pedra, Cada Ofício
Nenhuma
das cinco Ordens de Arquitetura é maior que as outras. Cada uma sustenta o
Templo à sua maneira — uma pela força, outra pela graça, outra pela proporção.
E entre os obreiros é a mesma coisa: um fala bem e guia pela palavra; outro
vibra com a harmonia e guia pelo som; um terceiro não fala nem canta, mas
sustenta com as próprias mãos o que os outros dois só nomeiam.
O
Intendente que tenta moldar todos os obreiros no mesmo formato não constrói —
nivela. E o que se nivela não sobe, apenas se acomoda. A verdadeira Obra pede o
contrário: escuta atenta a cada essência, para que cada um floresça conforme a
vocação que trouxe, e não conforme a forma que lhe quiseram impor.
É
assim, também, que se sustenta uma sociedade e não apenas um templo de pedra:
não pela uniformidade dos que a compõem, mas pelo respeito à diferença entre
eles, unida por um só propósito.
Antes
que o Sol se Ponha, de Novo
O
sol continua se pondo, todos os dias, sobre o mesmo edifício inacabado.
E
talvez seja essa a última lição do Grau 8, a que resume todas as outras: não há
Templo moral que se sustente sobre dívidas não pagas — nem de ouro, nem de
reconhecimento, nem de justiça devida a quem trabalhou. Propriedade, trabalho,
liberdade, justiça: quatro nomes para uma só coisa, que é dar a cada um o que
lhe pertence, no tempo certo, sem esperar que a noite cubra o que devíamos ter
resolvido à luz do dia.
Não
se levantam paredes com pedras não pagas.
E
talvez o verdadeiro Templo não seja aquele que um dia se conclui — mas aquele
em que, ao entardecer, ninguém ficou devendo a ninguém.
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