O Intendente e a Obra Inacabada

Por Hiran de Melo

Há momentos na vida em que percebemos que já não basta aprender.

Chega um tempo em que o conhecimento adquirido nos coloca diante de uma responsabilidade maior: a de ajudar outros a caminhar.

Talvez seja esse um dos sentidos mais profundos do Grau de Intendente dos Edifícios.

Até aqui, o iniciado aprendeu a reconhecer a pedra, a medir, a julgar, a distinguir o certo do errado, a compreender que toda construção exige disciplina e que nenhuma obra se sustenta sem fundamento. Mas chega um momento em que o homem deixa de olhar apenas para a pedra que está diante de si e passa a perguntar:

Quem está conduzindo a construção?

E, mais ainda:

Que tipo de homem estou me tornando enquanto construo?

O Grau 8 parece nos colocar exatamente nesse lugar.

O Intendente não é apenas aquele que supervisiona uma obra. Ele é aquele que começa a compreender que toda obra exterior é, de alguma maneira, uma revelação daquilo que existe no interior de quem a conduz.

Pode-se construir um templo magnífico e permanecer interiormente em ruínas.

Pode-se organizar homens, distribuir tarefas, estabelecer regras e ainda assim não saber liderar.

Pode-se ocupar um lugar de autoridade e jamais ter conquistado autoridade moral.

É por isso que o verdadeiro edifício do Intendente não está apenas nas paredes que se levantam diante dos olhos.

Ele está no homem que permanece invisível dentro delas.


Quando penso no Intendente, lembro-me de que nenhuma grande construção começa realmente pela pedra.

Antes da pedra existe uma intenção.

Antes da intenção existe um projeto.

E antes do projeto existe uma visão.

O homem que não sabe o que deseja construir pode até movimentar pedras durante toda a vida, mas jamais saberá se está edificando ou apenas acumulando ruínas.

Na vida maçônica acontece algo semelhante.

Podemos acumular graus, símbolos, palavras, conhecimentos e títulos. Podemos conhecer os nomes dos instrumentos e compreender seus significados. Podemos aprender os sinais da construção e dominar a linguagem da Arte.

Mas tudo isso pode permanecer exterior.

A iniciação verdadeira começa quando o símbolo deixa de ser apenas algo que contemplamos e passa a ser algo que nos contempla.

O templo começa a nos perguntar quem somos.

A régua pergunta sobre nossa medida.

O nível questiona nossa igualdade.

O prumo revela nossa verticalidade.

A pedra pergunta se estamos realmente dispostos a ser lapidados.

E o Intendente, diante de tudo isso, talvez descubra a pergunta mais difícil:

Que obra estou ajudando a construir?


Há uma diferença profunda entre mandar e conduzir.

Quem manda pode conseguir obediência.

Quem conduz precisa conquistar confiança.

O autoritarismo pode produzir silêncio, mas somente a liderança moral produz adesão.

O Intendente aprende, portanto, que sua autoridade não está no cargo que ocupa, mas naquilo que é capaz de oferecer aos outros.

O verdadeiro líder não é aquele que faz todos caminharem atrás de si.

É aquele que consegue fazer com que cada homem descubra o próprio caminho.

Isso exige uma virtude que talvez seja uma das mais difíceis para quem ocupa qualquer posição de liderança:

a escuta.

Escutar significa aceitar que o outro pode possuir algo que ainda não compreendemos.

Significa reconhecer que cada irmão carrega uma vocação diferente.

Um homem pode ter facilidade para falar.

Outro, para ouvir.

Um pode compreender a palavra.

Outro, a música.

Um pode liderar.

Outro, servir silenciosamente.

A grandeza de uma construção não está em transformar todas as pedras em uma única pedra.

Está em saber onde cada uma deve ser colocada.

O Intendente compreende isso.

Ele não deseja que todos sejam iguais.

Deseja que todos encontrem seu lugar na Obra.

Porque fraternidade não significa uniformidade.

Fraternidade significa aprender a construir juntos sem exigir que o outro deixe de ser quem é.


Talvez por isso o Grau 8 seja também o grau do cuidado.

Cuidar é diferente de controlar.

Quem controla deseja possuir.

Quem cuida deseja preservar.

O controlador olha para o outro como objeto de sua vontade.

O cuidador reconhece no outro uma vida que não lhe pertence.

O Intendente cuida da Obra porque compreende que ela não é sua.

Ele recebeu uma construção iniciada antes de sua chegada.

Recebeu pedras que outros homens cortaram.

Recebeu fundamentos que não colocou.

Recebeu um templo que não terminará.

E, mesmo assim, precisa trabalhar.

Existe uma profunda humildade nessa condição.

Ninguém começa do zero.

Todos nós chegamos atrasados à própria história.

Quando nascemos, o mundo já estava acontecendo.

A família já existia.

A cultura já estava estabelecida.

A linguagem já havia sido inventada.

As dores já tinham sido acumuladas.

As esperanças já tinham sido sonhadas por outros.

Chegamos ao meio da Obra.

Recebemos uma construção em andamento.

E somos convidados a fazer nossa parte.

Talvez essa seja uma das maiores lições do Intendente:

não somos donos da Obra; somos responsáveis por aquilo que fazemos com a parte que nos foi confiada.


Há, entretanto, uma armadilha escondida em toda posição de liderança.

É a tentação de acreditar que, porque estamos conduzindo, sabemos mais.

Porque fomos escolhidos, somos melhores.

Porque recebemos autoridade, somos superiores.

Porque conhecemos o caminho, somos donos da verdade.

É nesse momento que o construtor começa a construir a própria vaidade.

E toda obra construída sobre a vaidade, mais cedo ou mais tarde, apresenta rachaduras.

O Intendente precisa vigiar constantemente o próprio ego.

A vaidade é uma pedra mal colocada.

O orgulho é uma parede fora de prumo.

A arrogância é um teto que pesa sobre toda a construção.

A pressa pode destruir aquilo que a paciência levaria anos para edificar.

Por isso, talvez a primeira obra que o Intendente precise supervisionar seja a sua própria alma.

Antes de corrigir o edifício dos outros, precisa examinar suas próprias paredes.

Antes de medir o irmão, precisa medir a si mesmo.

Antes de apontar a falha na construção alheia, precisa perguntar onde sua própria obra apresenta fissuras.

O homem que não consegue olhar para si jamais estará preparado para conduzir outros.


Mas há algo ainda mais profundo.

Toda construção humana é inacabada.

Essa talvez seja uma das verdades mais difíceis de aceitar.

Nós queremos concluir.

Queremos chegar.

Queremos finalmente poder dizer:

Está pronto.

Mas a vida raramente nos concede esse privilégio.

Quando pensamos ter terminado uma etapa, outra começa.

Quando acreditamos ter compreendido, descobrimos que ainda não compreendemos.

Quando julgamos ter alcançado a maturidade, a vida nos apresenta uma nova experiência que revela nossa imaturidade.

Somos, de certa maneira, obras em permanente construção.

E talvez o grande erro seja acreditar que um dia estaremos completamente prontos.

O Intendente aprende a conviver com o inacabamento.

Ele compreende que não verá o templo concluído.

Trabalhará sobre aquilo que recebeu e entregará aos que vierem depois aquilo que conseguiu construir.

Essa consciência modifica profundamente a maneira de viver.

O homem que sabe que não verá o fim da obra não trabalha apenas para si.

Ele trabalha para o futuro.

A pedra que coloca hoje será utilizada por alguém que ainda não conhece.

A decisão que toma poderá afetar pessoas que jamais encontrará.

A palavra que pronuncia poderá permanecer na memória de outro homem durante décadas.

Por isso, construir é também assumir responsabilidade pelo que virá depois de nós.


Existe uma diferença entre deixar uma obra e deixar uma marca.

A marca pode ser apenas o sinal de que passamos.

A obra é aquilo que continua depois que partimos.

Talvez seja por isso que o verdadeiro Intendente não trabalha para ser lembrado.

Trabalha para que a construção permaneça.

Ele não precisa que seu nome esteja gravado na pedra.

Basta-lhe saber que a pedra está no lugar certo.

Há uma grande liberdade nisso.

Quando deixamos de construir para o aplauso, começamos finalmente a construir para a verdade.

Quando deixamos de desejar reconhecimento, começamos a compreender o sentido do serviço.

Quando o ego diminui, a Obra cresce.


Mas o que, afinal, estamos construindo?

Talvez essa seja a pergunta que deveria acompanhar todo maçom ao deixar o Templo.

Estamos construindo uma instituição?

Uma Loja?

Uma fraternidade?

Uma sociedade?

Sim.

Mas, antes de tudo, estamos construindo o homem.

E o homem que construímos em nós mesmos será aquele que levaremos para todos os lugares.

Não adianta construir templos de pedra se continuamos destruindo pessoas.

Não adianta falar de fraternidade se somos incapazes de amparar o irmão que sofre.

Não adianta defender a verdade se utilizamos a palavra para humilhar.

Não adianta falar de justiça se somos injustos quando ninguém está olhando.

A construção moral começa justamente onde termina o discurso.

É no cotidiano que a pedra revela sua qualidade.

É no silêncio que o caráter aparece.

É diante daquele que não pode nos oferecer nada em troca que descobrimos se realmente sabemos servir.


O Grau 8 nos coloca diante de uma responsabilidade que ultrapassa o espaço maçônico.

Ser Intendente é compreender que toda sociedade é uma construção coletiva.

Que ninguém edifica sozinho.

Que cada geração recebe um mundo parcialmente construído e parcialmente destruído.

E que cada homem precisa decidir o que fará com aquilo que recebeu.

Podemos ampliar as ruínas.

Podemos abandonar a Obra.

Podemos reclamar daqueles que vieram antes.

Ou podemos assumir o trabalho.

Talvez seja essa a grandeza do iniciado.

Ele não pergunta apenas:

Quem foi responsável pelo que encontrei?

Pergunta:

O que farei com aquilo que encontrei?

Essa mudança de pergunta transforma o homem.

Porque a maturidade começa quando deixamos de procurar culpados e passamos a assumir responsabilidades.


O Intendente dos Edifícios é, então, um homem entre dois tempos.

Ele olha para trás e reconhece a herança.

Olha para frente e percebe a responsabilidade.

E permanece no presente, trabalhando.

Esse presente é o único lugar onde a construção acontece.

O passado já foi pedra.

O futuro ainda é projeto.

Somente o presente é canteiro de obras.

É aqui que medimos.

É aqui que corrigimos.

É aqui que colocamos a pedra.

É aqui que estendemos a mão.

É aqui que ensinamos.

É aqui que aprendemos.

É aqui que servimos.

Talvez por isso o Intendente precise desenvolver uma virtude rara: a presença.

Estar presente na Obra.

Estar presente diante do irmão.

Estar presente diante de si mesmo.

Porque há homens que vivem sempre no passado, lamentando aquilo que não fizeram.

Há outros que vivem no futuro, esperando o momento ideal para começar.

E há aqueles que nunca começam porque estão esperando a construção perfeita.

O Intendente sabe que a obra perfeita não existe.

Existe apenas a obra possível.

E a obra possível precisa ser feita hoje.


No final, talvez o Grau 8 não seja apenas sobre construção.

Seus símbolos parecem nos conduzir a uma compreensão mais inquietante:

construir é reconstruir-se.

Cada pedra colocada fora exige uma pedra colocada dentro.

Cada parede levantada no mundo deveria corresponder a uma parede de caráter.

Cada medida aplicada à obra deveria nos ensinar a medir nossas próprias ações.

Cada instrumento utilizado deveria transformar alguma coisa em nós.

Porque a verdadeira construção não termina quando o edifício fica pronto.

Ela termina apenas quando já não há mais ninguém para continuar.

E talvez esse momento nunca chegue.

Porque sempre haverá uma pedra a lapidar.

Um irmão a amparar.

Uma injustiça a combater.

Uma verdade a buscar.

Uma virtude a desenvolver.

Uma parte de nós mesmos que ainda precisa ser reconstruída.

É por isso que o Intendente caminha.

Não porque sabe que chegará ao fim.

Mas porque compreendeu que o sentido está no próprio ato de construir.

Ele sabe que um dia entregará a obra.

E sabe também que outros homens virão depois.

Talvez não conheçam seu nome.

Talvez não saibam quais foram suas lutas.

Talvez jamais descubram quantas vezes ele precisou recomeçar.

Mas encontrarão a pedra.

E, se a pedra estiver no lugar certo, continuarão a construção.

Talvez seja essa a verdadeira imortalidade do homem:

não permanecer na obra como nome, mas permanecer nela como fundamento.

O Intendente, então, já não constrói para si.

Constrói para aqueles que virão.

Constrói para aqueles que estão.

Constrói para aqueles que ainda não nasceram.

E, enquanto constrói o Templo, descobre lentamente que o Grande Arquiteto nunca lhe pediu que terminasse a Obra.

Pediu apenas que não abandonasse o trabalho.

Porque a vida é uma construção inacabada.

A humanidade é uma construção inacabada.

A Maçonaria é uma construção inacabada.

E nós também somos.

Talvez a sabedoria do Intendente esteja justamente em compreender isso:

não somos homens que chegaram ao Templo.

Somos homens que receberam uma pedra.

E, diante dela, a única pergunta verdadeiramente importante é:

o que faremos com aquilo que nos foi confiado?

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