Período de Instrução

 

Cavaleiro Eleito dos IX – O Altar dos Juramentos no Grau 9

Por Inacio Loiola Campos Cavalcanti

No coração da Loja, o Altar dos Juramentos ergue-se como centro simbólico e espiritual do Grau 9. Revestido por um pano negro com lágrimas prateadas, representa a Câmara Mortuária — o luto pela morte do Mestre Hiram Abiff, arquiteto do Templo de Salomão e arquétipo do maçom perfeito. As lágrimas prateadas não são apenas ornamentos: expressam o sofrimento pela perda da sabedoria, da virtude e da integridade que Hiram encarnava.

Neste grau, não encontramos apenas uma narrativa de vingança, mas uma profunda lição de justiça moral. O Cavaleiro Eleito dos IX é aquele que, diante da traição e da desordem, escolhe a retidão e a coragem como resposta.

Elementos do Altar: Símbolos da Verdade e da Justiça

O Livro Sagrado (Pentateuco) repousa sobre o Altar como guia da conduta moral. Representa a verdade espiritual revelada, a vontade do Criador e a base dos valores que o maçom deve defender — especialmente a justiça e a verdade, que são o eixo central deste grau.

Os Estatutos e Constituições da Ordem estão presentes como expressão da lei e da ordem. Lembram que a liberdade maçônica não é anarquia, mas responsabilidade. O iniciado é chamado a viver sob o pacto da retidão, com coragem para corrigir injustiças e sabedoria para discernir o justo.

Duas espadas e um punhal são dispostos como instrumentos de ação e sacrifício. Na lenda do grau, Johaben executa um dos conspiradores que assassinaram Hiram. Esse ato não deve ser visto como vingança cega, mas como símbolo da luta contra os vícios, as paixões desordenadas e a ignorância — os verdadeiros assassinos do espírito humano.

Luzes e Juramento: A Consciência em Vigília

O Altar é cercado por nove grandes luzes, sendo duas amarelas que o iluminam diretamente. Oito delas formam um octógono, e a nona está posicionada entre o octógono e o Oriente. Juntas, representam os nove Mestres — figuras cabalísticas como Stolkin e Zabud — que buscaram os assassinos de Hiram e, simbolicamente, o poder da divindade.

É diante dessas luzes que o postulante faz seu juramento. Não se trata de um simples compromisso formal, mas de um pacto profundo com a verdade, a justiça e o silêncio sagrado dos mistérios. A violação desse juramento implica punições simbólicas severas — não como ameaça, mas como alerta para a gravidade do compromisso assumido.

Sacrifício e Aperfeiçoamento: A Missão do Cavaleiro

O Grau 9 ensina que o verdadeiro combate não é contra homens, mas contra as imperfeições que habitam em nós. O sacrifício exigido é interno: confrontar nossas paixões, vencer nossos vícios, iluminar nossa ignorância. O Cavaleiro Eleito dos IX é aquele que, mesmo em meio à escuridão, busca as luzes necessárias para se tornar um ser melhor — e, assim, corrigir as injustiças do mundo.

A Luz que Vence a Sombra

Este grau é um chamado à ação ética. O Altar dos Juramentos não é apenas um local de rito — é um espaço de transformação. Que possamos viver com coragem, servir com justiça e buscar a verdade com integridade. Que as lágrimas prateadas não sejam derramadas por oportunidades perdidas, mas por vitórias silenciosas sobre nós mesmos.

Breve Consideração

Por Hiran de Melo

O Altar dos Juramentos: um chamado à verdade interior

O texto “O Altar dos Juramentos no Grau 9 – Cavaleiro Eleito dos IX” pode ser visto como uma reflexão profunda sobre o ser humano, a verdade e o sacrifício. Inspirado pelas ideias do filósofo Martin Heidegger e pela leitura sensível de Giacóia, ele nos convida a olhar para dentro e reconhecer o que há de mais autêntico em nós.

O Altar como espaço de revelação

No centro da Loja, o Altar não é apenas um objeto simbólico — é um lugar onde o ser se revela. O pano negro e as lágrimas prateadas falam de luto, mas também de consciência. A morte de Hiram representa mais do que uma perda: é um alerta sobre nossa finitude e a responsabilidade de viver com sentido.

O juramento feito ali não é só uma formalidade. É um compromisso silencioso com o mistério, com aquilo que não se explica facilmente, mas que se sente. É escutar o que está além das palavras.

Justiça como escolha consciente

Neste grau, a justiça não é vingança. É uma resposta firme diante da traição e da desordem. O Cavaleiro Eleito dos IX escolhe a retidão não porque alguém manda, mas porque sabe que é o certo. Ele age com coragem, guiado pela verdade e pelo cuidado com o mundo.

Os instrumentos no Altar — o punhal e as espadas — não representam violência, mas ação consciente. São símbolos da luta contra a ignorância, os vícios e as paixões que nos afastam de quem realmente somos.

Sacrifício e luz: o combate interior

O verdadeiro combate não é contra outros homens, mas contra nossas próprias fraquezas. O sacrifício pedido aqui é interno: vencer os impulsos, iluminar a mente, buscar o equilíbrio. O Cavaleiro retorna ao Altar para reencontrar o sentido e renovar seu compromisso com a verdade.

As luzes ao redor do Altar representam esse caminho. A nona luz, entre o octógono e o Oriente, aponta para algo maior — o mistério divino que nos inspira a seguir adiante com fé e sabedoria.

Silêncio que fala

O silêncio do juramento é cheio de significado. Não é vazio, mas cheio de presença. Ele nos lembra que há coisas que só podem ser compreendidas com o coração atento. A punição simbólica por quebrar esse pacto não é ameaça, mas sinal da seriedade do compromisso assumido.

As lágrimas prateadas são o luto pela sabedoria perdida, mas também o brilho da esperança — a chance de reencontrar o caminho e seguir com mais clareza.

O Cavaleiro como exemplo de transformação

Este grau é um convite à ação ética. O Altar dos Juramentos é mais do que um lugar de rito: é um espaço de mudança.

Ele escuta o chamado do ser e responde com transformação — não para ser perfeito, mas para ser verdadeiro.

Alternativa

O Altar como lugar de desvelamento do Ser

Heidegger, em Ser e Tempo, propõe que o ser humano (Dasein) é aquele que se relaciona com o ser por meio da abertura, do desvelamento (aletheia). O Altar dos Juramentos, no coração da Loja, não é apenas um objeto ritualístico, mas um lugar ontológico — um espaço onde o ser se revela em sua finitude e em sua possibilidade de autenticidade. A Câmara Mortuária, com o pano negro e as lágrimas prateadas, evoca o ser-para-a-morte, que Heidegger considera a condição mais própria do Dasein. A morte de Hiram não é apenas um evento mítico, mas um chamado à consciência da finitude e da responsabilidade existencial.

Giacóia, ao interpretar Heidegger, enfatiza que a hermenêutica não é apenas interpretação de textos, mas uma escuta do ser que se diz no silêncio. O juramento diante do Altar, então, é uma escuta do mistério — um pacto com o não-dito, com o silêncio que funda a verdade.

Justiça como fundamento ontológico

A justiça, no texto, não é vingança, mas uma resposta ética à desordem. Heidegger não trata diretamente da justiça como conceito jurídico, mas sua ontologia do ser implica uma ética do cuidado (Sorge) e da autenticidade. O Cavaleiro Eleito dos IX é aquele que escolhe a retidão — não como norma externa, mas como modo próprio de ser-no-mundo. Ele se posiciona diante da traição como quem assume a responsabilidade por manter o mundo em sua ordem essencial.

Giacóia nos lembra que a verdade heideggeriana não é adequação, mas desvelamento. Assim, a justiça aqui é o desvelar do justo — não o que é imposto, mas o que se revela como necessário diante do ser do outro. O punhal e as espadas não são instrumentos de violência, mas símbolos da ação que corta o véu da ignorância e da paixão desordenada.

Sacrifício e iluminação: o combate interior

O sacrifício exigido pelo grau é interno — uma luta contra os vícios e paixões. Heidegger diria que é o combate contra a queda (Verfallenheit) na cotidianidade inautêntica. O Cavaleiro é aquele que se retira da dispersão do mundo e retorna ao centro — ao Altar — para reencontrar o sentido.

 As luzes que cercam o Altar são metáforas da clareira (Lichtung), espaço onde o ser pode se mostrar.

A nona luz, entre o octógono e o Oriente, é especialmente significativa: ela aponta para o limiar entre o mundo humano e o mistério divino. Giacóia, ao ler Heidegger, fala da necessidade de uma escuta poética do ser — e essa luz é o símbolo da escuta que transcende o racional e toca o sagrado.

A hermenêutica do silêncio e da sombra

O juramento feito diante do Altar é um pacto com o silêncio. Heidegger valoriza o silêncio como modo de dizer o indizível. O silêncio sagrado dos mistérios não é ausência de fala, mas presença do ser em sua profundidade. A punição simbólica pela quebra do juramento não é ameaça, mas lembrança da gravidade do ser — da responsabilidade de estar no mundo de modo verdadeiro.

As lágrimas prateadas, por fim, são o luto pela perda da sabedoria — mas também o brilho da possibilidade de reencontro. Giacóia diria que elas são vestígios do ser que se retira, mas deixa sinais para quem sabe ver.

O Altar como morada do ser

O texto é uma meditação sobre o ser autêntico, sobre a justiça como desvelamento, e sobre o sacrifício como caminho de iluminação. Heidegger está presente nas entrelinhas: no luto como abertura para o ser, na ação como cuidado, na luz como clareira, e no silêncio como linguagem originária. Giacóia nos ajuda a ouvir esse texto como quem escuta o ser que se diz no rito, na sombra e na chama.

O Cavaleiro Eleito dos IX não é apenas um personagem simbólico — é o Dasein que escolhe viver com coragem, servir com justiça e buscar a verdade com integridade. Ele é aquele que, diante do Altar, escuta o chamado do ser e responde com sua própria transformação.

ANEXO

O texto sobre o Grau 9 do REAA está carregado de simbolismo que ressoa com vários conceitos centrais da filosofia de Martin Heidegger. Vamos apresentar os principais:

 1. Dasein (Ser-aí)

O conceito fundamental da ontologia heideggeriana. O Dasein é o ser que se questiona sobre o próprio ser. No texto, o Cavaleiro Eleito dos IX representa esse ser que, diante da morte simbólica de Hiram, é convocado a assumir sua existência de forma autêntica.

O juramento diante do Altar é um ato de assunção existencial, onde o iniciado deixa de ser um ente qualquer e passa a ser um Dasein consciente de sua missão.

2. Ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode)

Heidegger afirma que a morte é a possibilidade mais própria do Dasein. A Câmara Mortuária e o luto por Hiram evocam essa dimensão: não como fim biológico, mas como abertura para a autenticidade.

O pano negro e as lágrimas prateadas são símbolos da finitude, que não paralisa, mas desperta o ser para sua verdade mais profunda.

3. Aletheia (Desvelamento da Verdade)

Para Heidegger, a verdade não é correspondência, mas desvelamento — o sair do oculto. O Altar, iluminado pelas nove luzes, é o espaço onde o ser se revela.

O juramento é um compromisso com essa verdade desvelada, não com dogmas, mas com a abertura ao mistério.

4. Fundamento e morada do ser

Heidegger fala da necessidade de encontrar um “fundamento” para o ser — não no sentido metafísico tradicional, mas como habitação. O Altar é essa morada simbólica, onde o ser pode repousar e se orientar.

O Livro Sagrado e os Estatutos são como o “solo” onde o Dasein finca sua responsabilidade ética.

5. Clareira (Lichtung)

A clareira é o espaço onde o ser pode aparecer. As luzes que cercam o Altar funcionam como essa clareira simbólica.

A nona luz, entre o octógono e o Oriente, representa o limiar entre o humano e o divino — o ponto onde o ser se mostra em sua transcendência.

6. Autenticidade vs. Inautenticidade

O combate contra os vícios e paixões representa a luta contra a inautenticidade — viver segundo o “se impessoal” (das Man).

O Cavaleiro é aquele que escolhe a autenticidade, mesmo diante da dor e da sombra.

7. Silêncio como linguagem originária

Heidegger valoriza o silêncio como forma de dizer o indizível. O “silêncio sagrado dos mistérios” é esse espaço onde o ser fala sem palavras.

O juramento não é apenas verbal, mas uma escuta do ser que se revela no silêncio.

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