Entre o Dever e o Abismo
Um diálogo entre dois Secretários Íntimos
Por Hiran de Melo

A porta havia sido fechada há pouco. Não por segredo, mas por necessidade. Há conversas que pedem recolhimento, não por medo do mundo, mas por respeito àquilo que nelas se move.

Sobre a mesa, repousavam os três sinais silenciosos: a carta selada, a chave e o punhal. Dois irmãos permaneciam diante deles, como quem contempla não objetos, mas perguntas.

— Diga-me — iniciou o primeiro, com voz firme e contida — o que sustenta um Secretário Íntimo quando ninguém o observa?

O segundo não respondeu de imediato. Seus olhos repousaram sobre o punhal, não com dureza, mas com atenção.

— Aquilo que ele não negocia — disse, por fim. — Há um eixo invisível que o mantém de pé. Não é o olhar do outro, nem o reconhecimento. É uma lei íntima, silenciosa, que o impede de trair a si mesmo.

O primeiro assentiu lentamente.

— Então o dever não é imposição… é escolha.

— É escolha repetida — corrigiu o outro. — A cada silêncio guardado, a cada palavra medida, a cada impulso contido. O Secretário Íntimo não é fiel porque prometeu. É fiel porque decidiu permanecer.

O primeiro caminhou até a carta selada. Passou os dedos sobre o lacre, sem rompê-lo.

— E a verdade? — perguntou. — Ela deve sempre ser dita?

O segundo respirou fundo, como quem pesa mais do que palavras.

— A verdade não é uma lâmina que se lança ao mundo sem critério. — disse. — Há verdades que libertam… e há verdades que ferem quando ditas fora do tempo. O segredo não é esconder — é proteger o sentido.

O primeiro voltou-se agora para a chave.

— Proteger… de quem?

— Do uso indevido. — respondeu o outro. — Do orgulho, da vaidade, da pressa. A chave não abre tudo. Ela exige discernimento. Nem toda porta deve ser aberta, e nem todo silêncio deve ser mantido.

Houve uma pausa. O tipo de pausa que não interrompe — aprofunda.

— Mas há algo mais — continuou o segundo, agora com leve intensidade na voz. — Não basta cumprir o que é correto. É preciso tornar-se digno disso. Há uma força interior que não se satisfaz com regras. Ela exige superação.

O primeiro ergueu o olhar.

— Superação de quê?

— De si mesmo. — veio a resposta, direta. — Do desejo de ser visto, da tentação de usar o que se sabe como poder. O verdadeiro domínio aqui não é sobre os outros. É sobre o próprio impulso de dominar.

O primeiro permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois, falou mais baixo:

— Então o punhal não serve apenas para cortar o erro…

— Serve para cortar as ilusões. — completou o outro. — As máscaras, as certezas fáceis, a falsa grandeza. Ele lembra que há algo em nós que precisa ser atravessado para que o que é essencial apareça.

O primeiro fechou os olhos, como quem reconhece uma ferida antiga.

— E quando a palavra se faz necessária? — perguntou. — Como saber que é o momento?

O segundo sorriu levemente, não de leveza, mas de lucidez.

— Quando o silêncio começa a proteger o erro. Quando calar já não é prudência, mas omissão. A palavra, então, deixa de ser escolha confortável e se torna responsabilidade.

— Mas essa palavra deve obedecer a quê?

— À verdade que não busca aplauso. — respondeu o outro. — À coragem que não precisa de testemunhas. À integridade que não se dobra nem diante do próprio interesse.

O primeiro abriu os olhos. Havia neles uma firmeza nova.

— E o poder? — perguntou. — Onde ele se esconde nesse grau?

O outro olhou ao redor, como quem mede um território invisível.

— Ele está em tudo. — disse. — Na informação que se guarda, na palavra que se diz, no silêncio que se sustenta. Mas é um poder estranho… porque quanto mais se busca usá-lo, mais ele se perde.

— Então qual é o seu verdadeiro uso?

— Não usar. — respondeu o outro, com serenidade. — Ou melhor, usar apenas para não se deixar corromper por ele. O poder aqui é prova, não prêmio.

O primeiro voltou-se mais uma vez para os símbolos. Agora, pareciam menos enigmáticos.

— Vejo — disse — que este grau não nos eleva.

— Não. — respondeu o outro. — Ele nos expõe.

— A quê?

— Àquilo que realmente somos quando ninguém exige que sejamos algo.

O silêncio voltou, mas agora carregado de presença. Como se algo tivesse sido compreendido, não pela lógica, mas por um acordo íntimo.

Antes de sair, o primeiro irmão ainda disse:

— Ser Secretário Íntimo… é viver entre o dever e a liberdade.

O segundo, já à porta, respondeu:

— É fazer da liberdade um dever… e do dever, uma expressão da própria verdade.

A luz foi apagada.

Mas, dentro de cada um, algo permanecia aceso — não como certeza, mas como caminho.

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