Entre o
Silêncio e a Chave
Um diálogo entre dois Secretários Íntimos
Por Hiran de Melo
A
sala estava quase vazia. Restava no ar aquele silêncio que não pesa — antes,
sustenta. Sobre a mesa, repousavam os símbolos: a carta ainda selada, a chave
imóvel, o punhal em quietude. Dois irmãos permaneciam ali, não como quem vigia,
mas como quem escuta o que ainda não foi dito.
—
Diga-me — começou o primeiro, com os olhos voltados mais para dentro do que
para o outro — em que momento alguém se torna, de fato, um Secretário Íntimo?
O
segundo não respondeu de imediato. Tocou levemente a chave, como se não a
segurasse, mas a consultasse.
—
Talvez nunca se torne por completo — disse, por fim. — Talvez seja sempre um
vir-a-ser. Um exercício contínuo entre o que se cala e o que se revela. Não há
posse nesse ofício, apenas travessia.
O
primeiro assentiu, como quem reconhece uma paisagem já visitada em sonho.
—
Então a carta não guarda um conteúdo — ela guarda uma tensão.
—
Exatamente. — respondeu o outro. — A carta selada não protege apenas palavras,
mas a responsabilidade de não as vulgarizar. Nem tudo que é verdadeiro precisa
ser exposto. Há verdades que se perdem quando ditas fora do tempo.
O
primeiro irmão caminhou alguns passos, lento, medido.
—
E a chave? — perguntou. — Se não abre cofres, o que abre?
—
Relações — veio a resposta, quase em sussurro. — A chave não concede acesso a
segredos, mas a vínculos. Ela abre o espaço invisível onde a confiança se
constrói. E isso não se impõe. Se conquista… e se perde com facilidade.
Houve
um breve silêncio. Não de ausência, mas de maturação.
—
Então o verdadeiro risco não está no segredo revelado, mas na confiança
quebrada.
—
Sim. — Confirmou o outro. — Porque quando a confiança se rompe, não é apenas um
laço que se desfaz. É todo um campo simbólico que se fragiliza. A palavra deixa
de ter peso. O olhar já não sustenta o mesmo acordo silencioso.
O
primeiro voltou-se agora para o punhal. Não o tocou.
—
E este? — perguntou. — Por que um instrumento tão duro em um grau que exige
tanta delicadeza?
O
segundo respirou fundo antes de responder.
—
Porque a ética também corta. — disse. — O punhal não é para o outro. É, antes,
para si mesmo. Para cortar excessos, ilusões, vaidades. Para lembrar que há
momentos em que o silêncio protege, mas há outros em que ele se torna
cumplicidade.
O
primeiro irmão fechou os olhos por um instante.
—
Então falar também é um risco.
—
Sempre foi. — respondeu o outro. — Mas é um risco necessário. A palavra, quando
nasce do silêncio bem guardado, não fere — ela orienta. Não se impõe — ela
ressoa. E, quando verdadeira, transforma sem alarde.
O
primeiro abriu os olhos, agora mais firmes.
—
E por que alguns são ouvidos e outros não, mesmo dizendo coisas semelhantes?
O
segundo sorriu levemente, como quem reconhece uma lei não escrita.
—
Porque não é apenas o que se diz. É de onde se diz. A palavra só ganha morada
no outro quando nasce de uma vida coerente. A autoridade aqui não se declara —
ela é percebida. Não vem do cargo, mas da conduta.
—
Então o silêncio dos graus anteriores não era vazio.
—
Nunca foi. — respondeu o outro. — Era construção. Era o tempo necessário para
que a palavra futura não fosse ruído. Quem aprendeu a calar com dignidade,
quando fala, não precisa elevar a voz.
O
primeiro irmão voltou-se novamente para a mesa. Agora, os três símbolos
pareciam menos objetos e mais presenças.
—
Vejo agora — disse — que não somos guardiões de segredos.
—
Não. — Interrompeu o outro, com suavidade.
—
Somos guardiões de algo mais frágil.
—
E mais poderoso — completou o segundo. — A integridade.
O
silêncio voltou a ocupar a sala, mas já não era o mesmo. Havia nele uma espécie
de acordo invisível, como se algo tivesse sido firmado sem assinatura.
Antes
de saírem, o primeiro irmão ainda disse:
—
Ser Secretário Íntimo… não é estar acima.
O
segundo respondeu, já à porta:
—
É estar entre. Entre o dizer e o calar. Entre o poder e o serviço. Entre o
segredo e a verdade.
A
luz foi sendo apagada lentamente.
E,
ainda assim, algo permaneceu aceso.
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