Entre o Véu e o Fogo
Um diálogo entre dois Mestres Perfeitos sobre o Mestre Secreto
Por Hiran de Melo
O
Templo estava em quietude. Não uma quietude vazia, mas aquela que escuta. A luz
do Oriente desenhava contornos suaves, como se revelasse apenas o necessário —
o resto permanecia velado, não por ausência, mas por escolha.
Dois
Mestres Perfeitos ali se encontravam. Não para ensinar, mas para recordar.
—
Há algo no silêncio deste grau — disse o primeiro — que não é apenas
recolhimento. É exigência.
O
segundo apoiou levemente as mãos sobre o altar.
—
Exigência de quê?
—
De coerência. — respondeu o outro. — O Mestre Secreto não pode ser dois. O que
ele guarda não é apenas um segredo… é uma medida interna.
O
segundo sorriu de leve.
—
Medida… ou limite?
—
Talvez ambos. — disse o primeiro. — Sem limite, o homem se dispersa.
—
E com limites demais — retrucou o segundo — ele se aprisiona.
O
primeiro voltou o olhar para o chão, como quem busca a firmeza na base.
—
Há uma voz que orienta. Uma espécie de tribunal silencioso dentro de nós. Ele
não grita, mas julga.
—
Ou nos acostumamos a ouvi-lo como se fosse nosso — respondeu o segundo. — E nem
sempre é. Às vezes, é apenas o eco do que aprendemos a obedecer.
O
primeiro ergueu os olhos.
—
E o que propões? Ignorar essa voz?
—
Não ignorar. — disse o outro. — Interrogar. Perguntar de onde ela vem. Se nasce
de convicção… ou de condicionamento.
O
silêncio que se seguiu foi mais denso. Como se ambos tivessem tocado algo
delicado.
—
O Mestre Secreto — continuou o primeiro — aprende a agir não pelo impulso, mas
por aquilo que reconhece como justo. Há um dever que não depende do aplauso.
—
Mas há também uma força — respondeu o segundo — que não depende de autorização.
Algo que quer criar, romper, afirmar-se. Se tudo em nós se curva ao dever, o
que resta de vida?
—
Resta a dignidade. — afirmou o primeiro.
—
Ou resta apenas conformidade — disse o outro, com suavidade.
O
primeiro não respondeu de imediato. Caminhou alguns passos.
—
Falemos da fidelidade — disse. — O que significa ser fiel, para ti?
O
segundo pensou por um instante.
—
Ser fiel não é repetir o que foi dito. É sustentar aquilo que faz sentido,
mesmo quando precisa mudar de forma.
—
Então a fidelidade admite ruptura?
—
Quando necessário, sim. — respondeu. — Há tradições que guardam essência… e há
tradições que apenas repetem gestos vazios.
—
E quem decide isso?
—
A consciência… — disse o segundo, pausando — …mas uma consciência viva, não
adormecida.
O
primeiro voltou-se para ele com mais atenção.
—
Há perigo nisso. Se cada um decidir por si, o que mantém a unidade?
—
Talvez não seja a uniformidade que sustenta a unidade — respondeu o outro. —
Talvez seja a integridade. Quando cada um é verdadeiro, o conjunto se torna
mais forte, não mais frágil.
O
primeiro permaneceu em silêncio.
—
E o sacrifício? — perguntou. — Qual o seu valor?
O
segundo respirou fundo.
—
O sacrifício só é nobre quando não nega a vida. Quando é expressão de escolha,
não de culpa. Há quem sofra por não saber viver… e há quem atravesse a dor para
tornar-se mais inteiro.
—
Vejo o sacrifício como fidelidade ao que se reconhece como justo — disse o
primeiro. — Permanecer, mesmo quando seria mais fácil ceder.
—
E eu o vejo como travessia — respondeu o outro. — Não para permanecer o mesmo,
mas para tornar-se outro.
O
silêncio voltou, agora mais sereno.
—
E o silêncio em si? — retomou o primeiro. — O que ele representa?
O
segundo olhou ao redor, como quem escuta o próprio espaço.
—
O silêncio pode ser escuta… ou pode ser medo. Pode ser sabedoria… ou omissão.
Depende do que ele guarda.
—
Para mim, é recolhimento — disse o primeiro. — É nele que a clareza se forma.
—
Para mim, é gestação — respondeu o outro. — É nele que algo novo se prepara.
Os
dois se entreolharam. Havia convergência, ainda que por caminhos distintos.
—
E o outro? — perguntou o primeiro. — Qual o lugar do outro nesse grau?
—
Fundamental. — disse o segundo. — Não como instrumento, mas como presença. Mas
não uma presença que limita… uma presença que desafia.
—
Vejo no outro alguém que deve ser respeitado sempre — afirmou o primeiro. —
Nunca usado.
—
E eu vejo no outro alguém que também nos obriga a crescer — respondeu o
segundo. — Não apenas a respeitar, mas a nos superar.
A
luz parecia agora mais íntima.
—
Então o Mestre Secreto… — começou o primeiro.
—
…não é apenas guardião — completou o outro.
—
É também construtor.
—
De si mesmo… e do que ainda não existe.
O
primeiro assentiu lentamente.
—
Entre o que deve ser preservado…
—
…e o que precisa ser criado — concluiu o segundo.
O
silêncio final não era ausência de palavras. Era presença de entendimento.
E,
antes de saírem, um deles ainda disse:
—
Ser Mestre Secreto é viver entre o véu e o fogo.
O
outro completou:
—
Guardar o que é essencial… sem impedir que o novo nasça.
A
porta se fechou.
E
o Templo permaneceu — não imóvel, mas vivo, sustentado por aqueles que sabem,
ao mesmo tempo, preservar e transformar.
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