Reconhecimento da Condição de Secretário Íntimo

Uma possível interpretação

Por Hiran de Melo

Ele respondeu: “Eu o sou”. E, ao erguer os olhos ao céu, parecia buscar mais do que confirmação — buscava sustentação. Não era apenas uma afirmação de pertencimento, mas o início de uma tensão silenciosa entre aquilo que se sente e aquilo que se deve ser. Há, nesse gesto, uma espécie de reconhecimento ainda incompleto: como se a alma intuísse uma altura que a vontade ainda não aprendeu plenamente a habitar.

Disse que entrou por curiosidade. E nisso reside uma verdade desconcertante. Quase ninguém começa pelo dever. Quase ninguém inicia pela clareza. O primeiro impulso é sempre imperfeito — uma inquietação, um desejo de saber, uma aproximação ainda sem compromisso. A curiosidade, por si só, não eleva; mas abre. É uma fresta por onde a consciência pode, se quiser, atravessar. Permanecer nela é dispersar-se. Superá-la é começar a ordenar-se.

A sala onde foi recebido não celebra — exige. O cortinado negro não oculta, mas confronta. Ali, as certezas superficiais perdem forma, e o homem se vê diante do que não domina. As lágrimas prateadas não são apenas ornamento: são sinais de uma lucidez que custa. Há uma beleza discreta em reconhecer limites, em perceber que o saber não se impõe inteiro, nem imediato. O ambiente não ilumina para confortar, mas para situar.

E as luzes — tantas — não resolvem o mistério; apenas o distribuem. Não há uma claridade absoluta, mas múltiplos focos que pedem discernimento. Cada luz é um fragmento que exige escolha. Cada escolha, um critério. E, pouco a pouco, o caminho deixa de ser guiado pelo desejo de conhecer e passa a exigir uma razão que organize, que dê forma, que estabeleça medida. Não basta ver: é preciso compreender por que se deve agir de determinada maneira, mesmo quando não se deseja.

Antes, ele era favorito. Estava próximo do poder, mas não necessariamente próximo da verdade. O favor sustenta relações, não princípios. Depende do outro, oscila com circunstâncias, não exige coerência interior. Era uma posição confortável, mas frágil — como tudo aquilo que não nasce de dentro.

Agora, o que se lhe pede é outra coisa. Não proximidade, mas integridade. Não privilégio, mas retidão. A passagem que se desenha não é de elevação externa, mas de deslocamento interior: sair da dependência de inclinações, de conveniências e de reconhecimentos alheios, para entrar no território mais rigoroso da autonomia. Um lugar onde o valor do homem não se mede pelo que recebe, mas pelo princípio que sustenta suas ações.

O verdadeiro segredo, então, começa a se revelar de forma paradoxal. Não está no que se esconde dos outros, mas naquilo que se guarda de si mesmo — na fidelidade a uma lei silenciosa que não precisa de testemunhas. E talvez seja por isso que sua resposta, tão simples, carregue um peso maior do que aparenta. Ao dizer “Eu o sou”, ele não afirma uma conquista concluída, mas assume uma exigência em curso — a de tornar-se, pouco a pouco, aquilo que declarou ser.

 


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