Os Arquitetos da Alma
Uma meditação sobre a construção invisível
Por Hiran de Melo
Ao
final dos trabalhos, quando as palavras já haviam cumprido sua função e o
silêncio voltava lentamente a ocupar o Templo, alguns homens permaneceram
sentados.
Não estavam reunidos para
discutir regulamentos.
Nem para deliberar sobre
cargos.
Nem para decidir o
destino de uma instituição.
Estavam reunidos diante
de uma pergunta muito mais antiga.
Uma
pergunta que acompanha a humanidade desde que o primeiro ser humano olhou para
dentro de si mesmo.
O que estamos realmente construindo?
Aparentemente, edificamos
templos.
Organizamos estruturas.
Criamos sistemas.
Erguemos colunas.
Mas existe uma obra mais
profunda acontecendo sob todas as outras obras.
Uma construção
silenciosa.
Quase invisível.
Uma arquitetura que não
utiliza pedra, madeira ou metal.
Uma arquitetura
construída com escolhas.
Com renúncias.
Com coragem.
Com consciência.
Porque
toda construção exterior é apenas um reflexo imperfeito da construção interior.
E
talvez o maior equívoco da existência seja acreditar que estamos edificando o
mundo quando, na verdade, é o mundo que está edificando aquilo que nos
tornamos.
A cada decisão uma pedra
é assentada.
A cada pensamento uma
parede se ergue.
A cada atitude uma coluna
ganha forma.
A cada omissão uma
fissura aparece.
Somos simultaneamente os
arquitetos e os edifícios.
Os construtores e a
construção.
Os escultores e a própria
pedra.
Talvez por isso o caminho
iniciático seja tão desconfortável.
Ele não oferece respostas
prontas.
Não entrega verdades
acabadas.
Não promete segurança.
Pelo contrário.
Ele desmonta.
Questiona.
Abala.
Desconstrói.
Porque
antes de erguer um templo é necessário descobrir quais ruínas habitam seu
terreno.
Antes de construir uma
verdade é necessário reconhecer as ilusões.
Antes de ascender é
necessário descer.
Descer aos subterrâneos
da alma.
Visitar os corredores
esquecidos da consciência.
Encontrar os medos que
governam secretamente nossas escolhas.
Encontrar as vaidades que
vestimos como virtudes.
Encontrar os personagens
que confundimos com nossa identidade.
A
verdadeira iniciação começa quando o homem percebe que não conhece a si mesmo.
E continua enquanto ele
tiver coragem de permanecer diante desse espelho.
Existe algo curioso na
condição humana.
Passamos a vida tentando
organizar o mundo.
Mas raramente tentamos
organizar nosso próprio interior.
Sabemos administrar
recursos.
Sabemos administrar
instituições.
Sabemos administrar
pessoas.
Mas não sabemos
administrar nossos impulsos.
Nossas sombras.
Nossos ressentimentos.
Nossos desejos de
reconhecimento.
Nossos medos mais
profundos.
E então construímos
edifícios magníficos sobre alicerces frágeis.
Porque o ego também sabe
construir.
Mas constrói para ser
admirado.
A consciência constrói
para servir.
O ego busca aplausos.
A consciência busca
sentido.
O ego deseja ocupar
espaço.
A consciência deseja
compreender o espaço que ocupa.
Talvez seja essa a
diferença entre o construtor de estruturas e o arquiteto da alma.
O primeiro mede
resultados.
O segundo mede
transformações.
O primeiro pergunta
quanto foi construído.
O segundo pergunta quem
se tornou durante a construção.
O primeiro observa a obra
concluída.
O segundo observa a
pessoa que emergiu dela.
Porque
nenhuma construção é mais importante do que o construtor que ela produz.
Nenhuma
realização vale mais do que a consciência que foi formada durante sua
realização.
Nenhum
templo possui maior valor do que o ser humano que aprendeu a tornar-se templo.
A grande obra sempre
esteve aí.
Escondida à vista de
todos.
Nunca foi a pedra.
Nunca foi a coluna.
Nunca foi o cargo.
Nunca foi o título.
Nunca foi a posição
ocupada.
A grande obra sempre foi
a transformação do olhar.
Quando o olhar muda, o
mundo muda.
Quando a consciência
desperta, a realidade adquire outra profundidade.
Quando
o ser humano encontra seu centro, já não necessita provar sua importância.
Já não necessita vencer
disputas invisíveis.
Já não necessita
transformar a própria existência em uma competição.
Porque descobre algo
raro.
Descobre que a verdadeira
grandeza possui a forma da simplicidade.
Que a verdadeira força
possui a forma da serenidade.
Que a verdadeira
sabedoria possui a forma da escuta.
E que a verdadeira
construção acontece em silêncio.
Talvez seja por isso que
os antigos falavam tanto sobre Luz.
Não porque a Luz
eliminasse os mistérios.
Mas porque permitia
enxergá-los.
No fim da jornada, a
pergunta permanece.
Não quantos edifícios
foram erguidos.
Não quantos símbolos
foram compreendidos.
Não quantos
reconhecimentos foram recebidos.
Mas uma pergunta
infinitamente mais profunda:
O que foi construído dentro de você
enquanto construía todas as outras coisas?
Porque,
quando o tempo levar embora os títulos, os nomes, os cargos e as estruturas,
restará apenas isso.
A arquitetura invisível
da alma.
A única obra que
atravessa a eternidade.

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