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Preboste e Juiz: A Maçonaria Além dos Encantamentos
Por
Hiran de Melo
O
Preboste e Juiz não é apenas o guardião da justiça externa. Ele é, sobretudo, o
homem que aprendeu a julgar a si mesmo. O verdadeiro tribunal deste grau não
está no mundo; está na consciência.
Existe
um momento na caminhada maçônica em que o Irmão descobre que nem toda pedra é
perfeita, nem todo obreiro corresponde às expectativas, nem toda instituição
humana consegue refletir integralmente os ideais que proclama.
Esse
momento costuma ser doloroso.
É
o instante em que a bola de ouro cai no poço.
Durante
os primeiros passos da jornada iniciática, muitos entram na Ordem carregando
imagens idealizadas. Alguns imaginam encontrar uma fraternidade sem conflitos.
Outros acreditam que descobrirão homens totalmente virtuosos. Há quem espere
respostas prontas para todas as questões da existência.
Mas
a realidade, como sempre acontece na vida, tem uma função educativa.
Ela
desmonta fantasias.
E
é justamente nesse ponto que começa a verdadeira compreensão do Grau de
Preboste e Juiz.
O
homem imaturo julga a partir das aparências.
O
homem maduro julga a partir da verdade.
O
primeiro vê apenas os defeitos dos outros.
O
segundo começa reconhecendo os próprios.
O
Grau 7 representa uma passagem silenciosa entre o entusiasmo da descoberta e a
responsabilidade da consciência. É o momento em que o maçom aprende que a
justiça não nasce da emoção, da simpatia ou da preferência pessoal. Ela nasce
da fidelidade aos princípios.
Da
mesma forma que o rei, no antigo conto do Príncipe Sapo, exige que a princesa
cumpra a palavra empenhada, o Preboste e Juiz recorda que nenhuma sociedade
civilizada pode sobreviver quando os compromissos deixam de ter valor.
A
palavra dada é o alicerce invisível de toda construção.
Quando
a palavra perde peso, os contratos tornam-se frágeis.
Quando
os contratos se tornam frágeis, desaparece a confiança.
E
quando desaparece a confiança, nenhuma obra coletiva consegue permanecer de pé.
Por
isso, o Grau de Preboste e Juiz ensina que a justiça não consiste em fazer
aquilo que nos agrada, mas em honrar aquilo que é correto.
Entretanto,
existe uma lição ainda mais profunda.
O
verdadeiro juiz não é aquele que condena.
É
aquele que compreende.
Ao
longo da vida, o maçom descobre que os homens são imperfeitos. Descobre que os
melhores líderes possuem limitações. Descobre que os mais respeitados mestres
também cometem erros. Descobre que ele próprio está longe da perfeição que
imaginava possuir.
Esse
é o grande desencantamento.
Mas
também é o início da sabedoria.
Enquanto
acreditamos em heróis perfeitos, permanecemos crianças espirituais.
Quando
aceitamos a complexidade humana, tornamo-nos adultos na arte de viver.
O
Preboste e Juiz é chamado exatamente para esse estágio de maturidade.
Seu
malhete simbólico não existe para esmagar pessoas.
Existe
para esmagar ilusões.
Ele
aprende a distinguir o erro do errante.
A
falta do faltoso.
A
ação da pessoa.
Compreende
que a justiça sem misericórdia se transforma em crueldade, mas que a
misericórdia sem justiça degenera em permissividade.
O
equilíbrio entre ambas constitui uma das mais elevadas virtudes maçônicas.
Existe
ainda um tribunal mais importante do que qualquer outro.
O
tribunal interior.
Todos
os dias, cada homem comparece diante dele.
Ali
não existem testemunhas externas.
Não
existem aplausos.
Não
existem títulos.
Não
existem graus.
Existe
apenas a consciência.
É
nesse tribunal silencioso que o Preboste e Juiz realiza sua obra mais
importante.
Ele
pergunta a si mesmo:
Tenho
sido fiel à minha palavra?
Tenho
julgado com equidade?
Tenho
exigido dos outros aquilo que não exijo de mim?
Tenho
servido à verdade ou apenas ao meu orgulho?
Essas
perguntas são mais difíceis do que qualquer julgamento formal.
Porque
ninguém consegue fugir delas para sempre.
O
Grau 7 ensina que a verdadeira autoridade nasce da responsabilidade.
Não
do poder.
Não
da vaidade.
Não
do prestígio.
A
autoridade legítima surge quando o homem se torna capaz de governar a si mesmo
antes de pretender governar os outros.
Talvez
seja essa a maior mensagem do Preboste e Juiz.
A
Maçonaria não existe para conservar encantamentos.
Existe
para formar homens capazes de atravessar os desencantamentos sem abandonar os
princípios.
Homens
que continuam honrando a palavra dada mesmo quando o entusiasmo desaparece.
Homens
que continuam praticando a justiça mesmo quando ela exige sacrifício.
Homens
que compreendem que a perfeição não é uma condição humana, mas a direção para a
qual devemos caminhar.
Porque,
no final da jornada, o verdadeiro Preboste e Juiz não é aquele que aprendeu a
julgar os outros.
É
aquele que adquiriu a coragem de julgar a si mesmo com honestidade, corrigir-se
com humildade e permanecer fiel à verdade mesmo quando todas as ilusões já
caíram.
A
essência do Grau 7 reside na travessia que conduz da idealização à maturidade.
Tal como o desencantamento revela a verdade oculta sob as fantasias, o Preboste
e Juiz representa o maçom que deixou para trás os encantamentos da infância
espiritual e aprendeu a sustentar o peso da própria consciência. Nele, a
palavra dada torna-se compromisso, a responsabilidade transforma-se em dever e
a justiça deixa de ser um ideal abstrato para converter-se em prática cotidiana
de vida.
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